domingo, 10 de dezembro de 2017

Sinto, penso. Quando menos, calo. Só não falo o que em mim escondo. Não me encontro mesmo assim.
Por favor se demore
Sempre que me abraçar
Colada no teu colo
Sinto encontro
Lugar de gostar
Meu sonho
tem cheiro de pele
alma carne e osso
fogo de palha
teu rosto quente em mim
arrasa arranha estraga
me rasga
sem saber
sentir

Meu sonho
desvairado devaneio
vai tão bruto quanto veio
e resta
e mostra
hora certa
de sair
voltar
e ver
ali
virar chuva
a estrada-fim
Só posso ser eu, só
Sinto solto
Dou-me ao erro
Chego sempre
Saio tarde

Só posso ser eu, só
Brinco a alma
Dou-me à cama
Bebo a calma
Caio longe

Só posso ser eu, só
Choro largo
Teimo pouco
Em ser outra
Num instante onde sinto

Que só posso ser eu, só
Fosse isso certo
Fosse essa a sorte
Seria tua
No primeiro ato
Enquanto busco-te
Enquanto, é fato
Custo tanto encontrar teu passo
caminho teu, incerto
Certeza de ser talvez
Enquanto tento, me encontro
E conto, nó já sem ponto
Enquanto isso, garanto
Te juro, enquanto isso
Vou só, mas vou feliz
nem José ou João
nem tantos outros
os que virão - quem são?
nem todos num só farão
saciar
vazio de amor-paixão
Passarinho era poesia
Sanhaço, quero-quero, bem-te-vi
Fez verão, fez rima e verso
reboliço, passarinho
Quis até fazer um ninho
Quando passou por aqui

Mas era mesmo canário
Passo solto, pouso ligeiro
Era voo e era vento
Era tanto, e tão pouco o tempo
Que foi então momento
Dia de voar-sair

Sabiá que era, só queria céu
Não haveria de ser meu
O encanto do canto-amor
Desse arteiro beija-flor
Que bem via voar por aí

Vai ser nuvem
passarinho, vai voar

Sei ser leve, se quiser
Se der pra me levar

Leve o que couber no peito
E se eu não estiver lá
Leve logo meu sossego
Que eu daqui me ajeito
E invento
Outro nome pra lembrar

Leve tudo e deixe aqui
O que não der pra carregar

Junto folha, enquanto passa
O tempo, vou fazer casa
João-de-barro
Vai ser nossa, lugar de morar

Volta um dia, se quiser
Prometo, daqui não parto
Só sei querer esse teto
E tento, vou te esperar

E quem sabe então um dia
Numa tarde, com muita sorte
viro parte da poesia
Quem sabe, se for de ventar

Quem sabe um dia
passarinho, te vejo voltar
Teu canto pousar no ninho
No dia certo de amar
Quanta alma
Vai embora
Tanta vida
Me escorre
Nos ponteiros
Do relógio digital
Que nenhum homem
Ou mesmo mulher
Que porventura vier
Que ninguém
Nunca ninguém
Me faça outra vez
Pensar
Que a culpa é minha
Que sou indigna
De um amor qualquer
Que meu corpo
É pior
Que o de outra qualquer mulher
Outra que como eu
Nunca
Em nenhuma hipótese
Se permita
Por ninguém que aparecer
Se sentir menos do que somos
nós
Do que podemos nuas
em nós mesmas ser
No quarto
Apertado
De tão grande
Vazio ainda
Inconveniente
Que no peito
largo, largado
hoje esconde
Desconfia
Teme um dia
Exatamente
Ser mais átrio
Outro quarto
Cheio e só
De tanto espaço
Deve então doer?
Devo então sangrar?
Devo então ser só
Só por ser mulher?

Em mim essa dor
Bate como onda quebrante
Quebra como vento
Cortante
Dilacera qualquer sonho
Latente
Faz de mim ex-sonhadora
Descrente
Só mais uma, só mais só
Um vinho
E um retrato empoeirado
Na estante